Sucessão exige decisões objetivas, mas acontece em um ambiente de subjetividade

No setor de locação de veículos, muitas empresas nasceram da coragem de um fundador e hoje enfrentam o desafio de garantir continuidade sem perder sua essência. Como preparar a nova geração e valorizar o legado? Como lidar com os conflitos que envolvem família e negócios? Como garantir que conhecimento e reputação não se percam com o tempo?
Para responder a essas e outras perguntas, a Revista SINDLOC-MG conversou com Daniela Teixeira, especialista em sucessão e governança em empresas familiares. Fundadora da Abrir-se Consultoria, Daniela atua há mais de 25 anos no desenvolvimento humano e estratégico de organizações conduzidas por famílias empreendedoras. Conselheira da ABRH/MG e da ACMinas, é professora convidada da Fundação Dom Cabral, FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), G4 Educação e IEL Nacional.
Nesta entrevista exclusiva, Daniela compartilha aprendizados práticos e provoca reflexões importantes para empresários do setor que desejam preparar o futuro com responsabilidade, coerência e visão de longo prazo.
Revista SINDLOC-MG: A sucessão em empresas familiares é um processo delicado em qualquer setor. Quais são os principais erros que os empresários do segmento de locação de veículos devem evitar ao pensar na continuidade?
Daniela Teixeira: Antes de falarmos diretamente sobre sucessão, é importante ampliar a compreensão sobre a sua complexidade. Não se trata apenas de transferir cargos ou patrimônio, mas de lidar com uma trama densa de relações, expectativas e responsabilidades. A sucessão exige decisões objetivas, que impactam tanto o negócio quanto os vínculos, mas acontece em um ambiente carregado de subjetividade, onde emoções, histórias e dinâmicas familiares influenciam profundamente o processo.
No setor de locação de veículos, assim como em outros segmentos, o maior erro é tratar a sucessão apenas como uma questão operacional ou jurídica, sem considerar o alinhamento entre as necessidades do negócio e os projetos de vida dos membros da família. Ignorar essa conciliação pode comprometer não apenas o futuro da empresa, mas também a coesão da família empresária. É fundamental preparar a nova geração com tempo, critérios e diálogo, respeitando o legado construído, mas também abrindo espaço para novas formas de pensar e liderar.
Revista SINDLOC-MG: Muitas locadoras surgiram como negócios familiares e hoje se tornaram grandes empresas. Como equilibrar a preservação dos valores da família com a necessidade de profissionalização da gestão na hora da sucessão?
Daniela Teixeira: Os valores da família empresária são, muitas vezes, a base que sustenta o crescimento e a longevidade do negócio. Preservá-los não é apenas uma questão afetiva, é uma estratégia de perpetuidade. Empresas familiares que se tornaram grandes geralmente o fizeram porque mantiveram uma conexão genuína entre valores, propósito, cultura e gestão.
Profissionalizar a gestão não significa afastar a família do comando, mas sim garantir que quem assumir a liderança — seja da própria família ou não — esteja preparado técnica e emocionalmente para o desafio. Por outro lado, quando a melhor decisão para o negócio é trazer um profissional externo, é preciso clareza estratégica: entender as reais necessidades da empresa, os desafios que se impõem e o perfil da equipe atual.
A escolha do executivo deve ir além da competência técnica — ele ou ela precisam estar alinhados com a cultura da família empresária, respeitando sua história, seu legado e suas prioridades de longo prazo. Sucessão bem-sucedida é, portanto, um exercício de coerência entre legado, estratégia e liderança.
Revista SINDLOC-MG: No setor de locação de veículos, é comum que o fundador concentre boa parte do conhecimento técnico e das relações comerciais. Como garantir que esse capital simbólico e estratégico seja transferido às próximas gerações?
Daniela Teixeira: Essa pergunta é central para a continuidade de empresas familiares — especialmente em setores como o de locação de veículos, onde o conhecimento prático e as relações comerciais consolidadas são diferenciais competitivos.